Raro é o pai que nunca teve de lidar com uma birra do filho. Quase todas as crianças passam por momentos destes, com menor ou maior intensidade, o que deixa os pais sem saber como reagir.
O que são?
Embora ruidosas, desesperadas e embaraçosas as birras são manifestações da vontade da própria criança. O comportamento infantil é muito heterogéneo, sendo que algumas crianças contestam mais os limites e as regras impostas pelos adultos do que outras. Podem gritar, chorar, dar pontapés, agitar os braços, deitar-se no chão, morder-se, arranhar-se, atirar brinquedos e objetos ao ar pelas coisas mais simples: não querem comer a sopa, não querem tomar banho, não querem dormir a sesta, querem aquela boneca ou guloseima no hipermercado (porque é que os levamos para estes sítios?!). Querem e não querem porque já se aperceberam que é possível terem vontades.
O que significam?
A boa notícia é que tal situação é típica e normal duma fase de crescimento em que a criança se procura afirmar, com sentimentos e vontades próprias. Mais, apesar de ser difícil lidar com este tipo de comportamentos, eles podem se tornar ótimas oportunidades de ajudar a criança a aprender a conviver com o sentimento de frustração e a desenvolver capacidade de autocontrolo. A tarefa dos pais é ensinar à criança que existem outras formas de expressar as suas necessidades, e a aceitar o fato de que nem sempre lhe vão fazer a vontade.
O que não fazer?Nestes momentos é fundamental que os pais digam à criança que não, explicando o motivo pelo qual o estão a fazer. E não há justificação para que seja de outra maneira: não ceda mesmo que se sinta culpado por não passar muito tempo com ela, não ceda mesmo que ela se tenha andado a portar bem nos últimos tempos, e não ceda por estar a morrer de vergonha pelas cenas que a criança está a fazer em público.
- Ao ceder, vai passar a mensagem que as birras são normais e perfeitamente aceitáveis para as crianças obterem aquilo que desejam e, pior, dará asas a um ciclo vicioso que se tornará cada vez mais difícil de controlar e ultrapassar.
- Ao não ceder, está a mostrar-lhe várias coisas: 1) Existe um tempo para tudo, ou seja, não pode ter tudo aquilo que quer quando e onde apetece; 2) Existem regras e limites que devem de ser respeitados; 3) Tem de saber esperar pelas coisas que quer; e 4) Terá muitas vezes que lutar para as conseguir.
- Mantenha a calma. Talvez a coisa mais difícil de fazer no meio de uma birra, mas a mais eficaz. Respire fundo, não eleve a voz, não ceda aos nervos, seja claro e dê o exemplo.
- Ignore-a. Pode parecer, à primeira vista, um pouco desumano ignorar uma criança. Mas o que se pretende é ignorar a birra e não a criança. Nas primeiras birras esta atitude pode não resultar, aumentando até a sua intensidade. Mas, se o fizer regularmente, as birras vão acabar por ir diminuindo porque a criança vai perceber que não estão a surtir efeito.
- Evite a raiva e a utilização de força física. Não grite, não bata e não ameace. A birra em si já é tão “violenta” e descontrolada que vai apenas incendiar um fogo que já está a arder. Para além disso, as birras podem ter subjacentes outros cenários: cansaço, fome, stress, o que significa que o mais importante naquele momento é reconquistar a estabilidade. Introduza o diálogo depois do choro, pois as explicações só vão ser oportunas e ouvidas depois da crise passar.
- Deixe a criança sozinha. Se a birra acontecer em casa ou noutro espaço familiar, experimente distanciar-se da criança, deixando-a sozinha durante alguns minutos ou segundos. Segundo as especialistas, este método não é castigo, ensina a criança a controlar as birras e aprender a lidar com o sentimento de raiva por não conseguir o que ela quer. Os especialistas apontam para um minuto para cada ano de vida da criança, afinal mais do que isso ela dispersa e o efeito não é o mesmo. Após esse período, regresse ao pé dela ou permita que ela vá ter consigo onde estiver.
- Não ameace com castigos que não vai conseguir cumprir. Se optar por esta estratégia ameaçadora mas sem consequências reais, a criança não terá problema algum em repetir a birra. Uma criança tem de estar ciente das consequências que possam advir das suas ações, boas e más. Da mesma forma que deve ser elogiada por ter arrumado o quarto, ela tem de ser castigada se bater no irmão ou fizer uma birra. Uma das estratégias mais utilizadas com as crianças que fazem birras é colocá-las no chamado “cantinho da disciplina” – que pode ser numa cadeira já designada para o efeito, numa esquina, ou tão simplesmente no quarto dela ou num recanto da divisão onde estiver – do qual só podem sair após o cuidador deixar. Ora, como detestam estar confinados, normalmente acalmam-se rapidamente e, ansiosos para se libertarem da “prisão”, acabam por pedir para sair com promessas de bom comportamento!
Claro que existem crianças com pulmões de sopranos e pilhas que parecem não terminar, que fazem birras que não acabam e têm tendência para piorar. Nestes casos, é importante estabelecer contato físico com a criança sem ceder ao seu pedido. Concentre-se no seu estado emocional e não na sua exigência, falando com ela tranquilamente, de preferência sobre outras coisas = distraindo-a.
Felizmente, a fase das birras é isso mesmo, uma fase passageira. No entanto, se sentir que as birras da criança se tornam mais frequentes e sem sinais de abrandamento, fale com o seu pediatra. Converse muito. Finda a birra é importante conversar com a criança sobre o que se passou. Após a criança se controlar, felicite-a por ter optado pelo bom comportamento, e procure falar com ela sobre alternativas mais eficazes que as birras. Só com firmeza as crianças aprendem a respeitar as regras propostas pelos pais. A autodisciplina é ensinar a criança a controlar, positivamente, as situações em que se encontra. Aprender que tudo tem limites, abre caminho para um desenvolvimento pessoal e social harmonioso, essencial para uma boa integração futura na sociedade.



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